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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

História Local e Política em sala de aula



De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN´s) a história local aparece como tema a ser ensinado nas séries iniciais do Ensino Fundamental. A família, o bairro, a cidade e suas instituições são temas de relevo definidos pelos PCN´s. Embora seja relevante para o Fundamental I, a história local detém grande utilidade no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio. As experiências cultural, social, política e econômica carregam complexidades que não são digeridas pelos alunos do Fundamental I, fato que inverte o tema em relação da capacidade cognitiva dos alunos. 
Atualmente muitos professores sofrem porque os alunos do Fundamental II e Médio não se interessam pelo conteúdo transmitido pelos professores. Eles não conseguem compreender a utilidade de temas macros em suas vidas, estudam "um mundo de fantasia" fora do cotidiano. Um Europa com um mapa "feio" e sociedades exóticas como Egito e Roma podem ter a mesma relevância que outras sociedades fictícias como A Terra Média e Westeros. São temas que fogem da realidade dos alunos, assim o professor passa a ser um alienígena em sala de aula. Logo nos perguntamos: "qual o universo mais prático de um aluno"? O mundo em que ele vive a começar pelo Local! Aquele do qual ele se locomove apesar da diminuição de distâncias do mundo globalizado e digital. Assim, não negando a importância da História Global, a História Local é uma ferramenta importante para fazer que nossos alunos pensem historicamente, tarefa de incrível complexidade para o Fundamental I.

A Política estampada nos livros didáticos ainda está presa à perspectiva historiográfica positivista de homenagear a Nação e seus heróis. A política se limita ao que esta acontecendo no âmbito nacional. Exemplo: Independência, Regência, República Velha, Revolução de 30, Populismo, Ditadura Militar e Redemocratização, fatos que unem macros períodos políticos da História do Brasil. O aluno não se aquilo influenciou/influencia no seu cotidiano, se na cidade ou na região campesina tais fatos pesaram na mudança de experiencias de seus "iguais". O local fica despregado da História, a história que ele estuda é do Recife, do Rio de Janeiro e de São Paulo. E a sua história? Quem representou sua região durante a República Velha? Qual a relação da sociedade local com a centralização política?  Seu local participou da Revolução de 1817? As respostas são desafios que cabem aos professores de História responderem a seus alunos e chama-los para o debate político local, para assim, perceberem que são sujeitos de ação e definir suas estratégias de mudanças e permanências. São muitos os desafios para esta missão a começar pela confecção do material didático, tema que trabalharei em outro post. 





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sérgio Buarque de Holanda: a cordialidade brasileira




Hoje completa 100 anos do nascimento do historiador Sérgio Buarque de Holanda, um dos maiores nomes da Sociologia e da Historiografia brasileira. Pai do cantor Chico Buarque, Sérgio Buarque se destaca juntamente com Gilberto Freire e Caio Prado Junior como um dos maiores intérpretes da sociedade brasileira pós-1930.
Sua principal obra, Raízes do Brasil, foi publicada em 1936 e representa para o Brasil uma séria discussão sobre seu caráter político. Destaca-se a ideia de que o brasileiro foi marcado desde a colonização pela cordialidade:

"A cordialidade....a lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam com efeito um traço definitivo do caráter brasileiro..." 

Esta mesma cordialidade é uma das mazelas da sociedade brasileira. Por se tratar sempre de tratamento cordial, principalmente na relação entre a população e os nobres, a sociedade brasileira se desenvolveu em favorecimento das classes dominantes, fato que foi criticado pelos comunistas e integralistas durante a publicação do livro. Daí a sociedade permitir a invasão do público pelo privado, fato que surgiu primeiramente com o poder dado as famílias que chegavam de Portugal.
Aqui entra o debate sobre o que é o público e o que é privado na consolidação política do Brasil. A maior contribuição de relevo para este debate veio da obra de Sérgio Buarque de Holanda. Para ele, a empresa colonial formada pela família patriarcal, propiciou “a invasão do público pelo privado, do Estado pela família”. (HOLANDA, 1995, p.82.) A família como empreendedor foi, assim como em Freyre, a base da formação político-social do Brasil. A ideia de Estado era a mesma de uma grande união familiar que dirigia uma grande empresa. Assim, a política e a economia determinaram o papel da família extensa:

O primeiro princípio da economia política é que o soberano de cada nação deve considerar-se como chefe ou cabeça de uma vasta família, e consequentemente amparar a todos que nela estão como seus filhos e cooperadores da geral felicidade.

Este modelo coloca a família no lugar do Estado, não sendo de se admirar que nosso Congresso possua tantas heranças familiais. 

         Vale salientar que para Holanda (1995, p.141), o Estado não era uma evolução da família como propunham os historiadores dos oitocentos, mas sim uma “descontinuidade” e até mesmo “uma oposição”. Isto devido a constante inter-relação entre público e privado. É com a transgressão do público pelo privado que o “empregado”, ou o sujeito que é classificado pela “amizade desigual”, passa a ser cidadão. Esse modelo de mudança que transforma a família patriarcal em família nuclear e, consequentemente, o poder familiar em poder do Estado, é resultado da expansão da produção industrial. Assim, o poder patriarcal com base rural perde poder com o crescimento das cidades, fruto das mudanças de trabalho. Temos assim, a família como “bárbara” em oposição ao Estado “civilizado”.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Desconstrução do Populismo: concepções teóricas


                                            Jânio Quadros em campanha eleitoral 

Para o brasilianista Skidmore, o coronelismo se assentava “num sistema político manipulável” enquanto o populismo “pressupõe um sistema político aberto com resultados menos previsíveis”. Assim como colocamos o coronelismo como cultura política, o populismo também o é? O populismo a partir da análise conceitual, a priore, seria a continuação da cultura política mandonista que perpassa o patriarcalismo e o coronelismo. Ocorre que em termos conceituais, o populismo é um termo confuso: seria o personalismo dos políticos e a barganha dos votos num cenário urbano e industrial. Enquanto que nas regiões menos urbanizadas seria um novo sistema de controle entre dominantes e dominados.
Na historiografia brasileira, o conceito de populismo está intermediado com as condições da vida das classes trabalhadoras. Devido à falta de determinada consciência de classe das “massas”, recém-chegada no setor urbano, o Estado utilizou de práticas populistas para “manipular, cooptar e corromper os trabalhadores”. Ocorre que nas últimas décadas o conceito de populismo foi revisado e não se enquadrou no conceito de cultura política.
O historiador Jorge Ferreira divide a interpretação do populismo em duas gerações. A primeira geração abrangeu as décadas de 1950 e 1960. Neste período, o populismo foi explicado a partir da teoria da modernização. A inserção da América Latina no mundo moderno foi diferente da democracia liberal européia, o processo de urbanização e industrialização mobilizou as “classes populares” que buscaram maior representatividade política, o resultado foi o aparecimento de ditaduras militares e governos nacionais – influenciada por líderes manipuladores “das massas”. O populismo surgiu num período de transição da economia agro-exportadora para a economia industrial. A sociedade moderna se originou da formação da classe campesina que migrou para as cidades.
Destacam-se várias teorias sobre o populismo na primeira geração sugerida pelo(s):
·                O Grupo de Itatiaia: defendia a teoria da modernização com o surgimento de uma classe proletária sem consciência de classe liderada por um líder carismático.
·                O sociólogo Alberto Guerreiro Ramos: descreve o populismo como “doenças infantis do trabalhismo” de um “povo embrionário”. As doenças por ironia eram “o varguismo, o janguismo, o peleguismo e o expertismo”.
·                O sociólogo Luiz Werneck Viana: o populismo segundo este, numa “interpretação sociológica” surgiu a partir do individualismo de origens rurais que transformou a classe operária passiva perante o domínio do Estado.
A segunda geração analisou a relação entre o Estado e a sociedade com forte influência do marxismo. Assim se destacou nas discussões o conceito de ideologia. A principal questão era: como a ideologia influenciou a classe trabalhadora referente ao papel do Estado?   A resposta foi o advento por parte do Estado de uma “falsa consciência” que levou os trabalhadores a não se revoltarem contra o Estado. A maior influencia marxista foi de Antonio Gramsci, para esta geração, o poder repressivo e persuasivo[1] do Estado prevaleceu sobre as classes trabalhadoras dando origem ao populismo.
     A partir da década de 1980 o conceito de populismo foi substituído por uma análise vidrada no controle operário. O Estado utilizou de mecanismos racionais para controlar a classe operária. Mas com a recepção da história cultural no Brasil, percebe-se que este controle era ilimitado, pois a classe operária possuía vida própria. Assim, observou-se que nenhum Estado tinha domínio totalitário sobre as “massas”, pois existiam relações mais complexas entre dominantes e dominados.   
Concordamos com Ferreira quando este nega que o Estado transformou a sociedade em elemento passivo perante a dominação e a repressão. Para ele:

A sociedade em si mesma não era tão “boa” e isenta de culpas, e que nela circulavam preconceitos contra judeus; manifestaram-se rancores contra alemães e japoneses, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial; existiam pessoas com horror dos comunistas ou dos integralistas; encontravam-se alguns que queriam punir o comerciante da esquina desmedido em seus lucros; havia outras que desejavam livrar-se das dívidas com agiota – e, em alguns casos, mais raros, do próprio marido. (...) Em outras palavras, as relações entre Estado e sociedade não eram de mão única, de cima para baixo, mas sim, de interlocução, de cumplicidade.

            Ao se retirar a interpretação maniqueísta entre o Estado e a sociedade, o conceito de populismo perde sentido. A partir da década de 1990, o conceito estava em colapso devido à introdução no Brasil de teorias advindas da História Cultural[2] e da História Social. Houve também a interpretação baseada na idéia de que a consciência de classe forma-se independente da relação com a classe dominante. Teoria atribuída ao historiador inglês E.P. Thompson:
Se determos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sócias, observaremos padrões em suas relações, suas idéias e instituições. A classe é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história e, ao final, esta é a sua única definição.

            Assim, a partir desta interpretação relativa à idéia de “classe”, entendemos o populismo como pouco elucidativo para explicação da relação política entre o Estado e a sociedade. Não houve uma dominação ideológica entre o Estado e a classe operária, mas sim, troca de interesses. Logo o populismo não é um poder absoluto e totalitário, já que existem os valores, as crenças, os mitos e as tradições de determinada sociedade, que ora denominamos de cultura política. 
                           Adhemar de Barros, o 1° grande "populista", governador de São Paulo


[1] A partir da propaganda do governo e da doutrinação política.
[2] Destaca-se a idéia de “circularidade cultural” de Ginzburg do qual as idéias “circulam” entre a cultura popular e a cultura erudita e a idéia de apropriação e resignificação das mensagens dos dominantes discutida por Chartier.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Baixar - O Tempo Saquarema de Ilmar Rohloff de Mattos

O livro foi resultado da tese de doutorado de Ilmar Rohloff de Mattos defendido em 1985 no departamento de História da FFLCH da Usp. Obra utilizada nas aulas de História do Brasil, O Tempo Saquarema narra a história do Império como formação de uma classe específica denominada Saquarema que do Rio de Janeiro delineou os caminhos da "futura nação brasileira". O livro mostra como esta classe dominante guiou a formação do Estado a partir de seus interesses econômicos. Leitura difícil e cativante, narra um período da história do Brasil em que os princípios modernos da Europa era destinado apenas ao favorecimento das elites agrárias. Obra esgotada!!! Disponível em PDF!!!!

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