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segunda-feira, 14 de maio de 2012

O interventor Gratuliano Brito e a Revolução Constitucionalista




Gratuliano Brito assumiu a interventoria com dois grandiosos obstáculos: a seca de1932 que assolava inclusive sua terra natal e a ameaça da Revolução Constitucionalista em São Paulo. Assim, o discurso revolucionário esteve presente em quase todas as páginas do jornal A União, durante seus dois primeiros meses. Gratuliano demonstrou ser um bom orador e sempre trouxe à tona o “espírito” de João Pessoa nas horas de atribulações.
            Em julho de 1932, dias depois de Gratuliano Brito assumir a interventoria da Paraíba, estourou em São Paulo a Revolução Constitucionalista liderada pelos antigos oligarcas paulistas que perderam privilégios durante o Movimento de 1930.  Durante a “Revolução”o Partido Democrático era rival do Partido Republicano Paulista (PRP) encabeçada por Júlio Prestes. O Partido Democrático apoiou Vargas no Movimento de 1930 e esperava receber deste os mesmos privilégios que tinham o PRP na República Velha, fato que não aconteceu. Além disto, eles estavam insatisfeitos com a presença do interventor pernambucano João Alberto, devido ao fato deste ser “forasteiro”. Ainda compunham a oposição paulista a Vargas, os cafeicultores e militares descontente com o privilégio dos tenentes.  
            Para amenizar a crise política com São Paulo Vargas lançou um Novo Código Eleitoral e um decreto marcando as eleições para 3 de maio de 1933. Ao mesmo que nomeou um interventor paulista e civil, Pedro de Toledo. Mas como afirma Skidmore (1932, p.37):

O Estado e a cidade de São Paulo tinham um tal complexo de superioridade em relação ao resto do Brasil que um movimento de oposição ao govêrno federal poderia ganhar muitos adeptos que nada tinham de comum, além da sua apaixonada qualificação como paulistas.

Em 9 de julho de 1932 São Paulo iniciou a revolta que ficou conhecido como Revolução Constituição. Vargas detinha grande apoio militar, com exceção de alguns quartéis do Mato Grosso. Além do mais, ele teve a colaboração dos soldados dos Estados que participaram mais ativamente no Movimento de 1930. São Paulo foi cercada pelo Rio Grande do Sul ao sul e por Minas Gerais e os estados nordestinos ao Norte, incluindo as forças militares da Paraíba, motivo de reavivamento do discurso “revolucionário” dos aliancistas.
            Quando Gratuliano Brito soube da Revolução Constitucionalista de 1932, estava em Cajazeiras, cidade do alto sertão paraibano. Este recebeu um telegrama do Ministro Francisco Campos, que descrevia a revolta no Estado do Mato Grosso. Imediatamente, Gratuliano respondeu o telegrama e notificou o retorno para a capital, para prestar apoio ao governo central[1]. O espírito revolucionário de 1930 tinha retornado no discurso dos “aliancistas”. Como retorno da tensão dos 70 dias antecedentes do Movimento de 1930, a Paraíba se viu num verdadeiro campo de batalha.
            Gratuliano, jovem interventor e que teve grande apreço pela “Revolução”, trocava constantemente telegramas com o interventor Flôres da Cunha do Rio Grande do Sul, relembravam os tempos gloriosos da vitória de outubro e incentivavam a soldadesca a salvar a República[2]. Dois discursos foram publicados por Gratuliano Brito de incentivo aos soldados que marchavam para São Paulo. Nota-se que em ambos os discursos, “a Revolução” de 1930 era a garantia de vitória das tropas.[3] A semana de envio das tropas era uma semana de “co-memorações” em relação a morte de João Pessoa e ao dia do Nego. Assim, os primeiros dias do Governo de Gratuliano Brito foram conturbados e voltados diretamente contra a Revolução Constitucionalista.


[1]A UNIÃO, 12 de jul. 1932, p.1.
[2]A UNIÃO, 18 de jul. 1932, p.1.
[3] “Marchae soldados da Parahyba, que a victoria é certa. Só tenho duas coisas a pedir-vos; no aceso do combate, lembrae-vos de que antes de tudo sois parahybanos e que o espírito de João Pessoa paira por sobre vossas cabeças, iluminando as vossas trincheiras e abençoando a vossa bravura”. A UNIÃO, 21,jul,1932.p1. No dia do Nego, Gratuliano publicou o seguinte discurso: “Vede bem; não combatemos São Paulo e sim meia dúzia de políticos oportunistas que, abusando da irreflexão de uma mocidade civil e militar, culta e vibrátil, desencadeia uma lucta fratricida e fica nos gabinetes para usufruir depois os proventos do seu plano. Marchae, soldados da Parahyba, que a victória é certa”. A UNIÃO, 29 de jul,1932,p.1. 


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A santificação de João Pessoa em São João do Cariri em 1931

O cronograma projetado para a semana cívica em decorrência da morte de João Pessoa, em 1931, escrito por membros da família Brito[1], demonstra bem a mistificação da família como arautos da “Revolução” de 1930 em São João do Cariri. Não menos importante do que o hasteamento da bandeira do Nego[2] no dia 19 de julho de 1931. Três fatos chamam a atenção a mistificação construída pela família Brito. O primeiro fato ocorreu no dia 26 às 12:00 horas: “Exposição do retrato do presidente João Pessoa no Edifício da Prefeitura Municipal, sendo nessa ocasião cantado o hymno a “João Pessoa”, pelos alunos das escolas, acompanhados pela banda de música”. O primeiro fato demonstra a construção de símbolos em torno do mito “João Pessoa”, do qual até mesmo os estudantes eram doutrinados e senão, obrigados a cantar o hino ao “mártir”.
O segundo fato é mais estrambólico ainda, ocorrido uma hora após cantarem o hino houve “distribuição de esmolas aos pobres pelas professoras d. Ana Cavalcante e Albertina Ramos”. O fato de dar esmola numa data de “co-memoração” tem sentido estritamente político. Fica claro a construção do “político bondoso” em prol da memória do “bondoso” presidente da Paraíba. Os Britos eram amigos de João Pessoa, os Britos eram bons, eles davam esmola que nem João Pessoa. Apesar de que João Pessoa, em sua administração, não adotou práticas populistas. Assim, os Britos estavam a construir uma imagem de salvadores.
O terceiro fato evidencia o papel religioso que João Pessoa estava representar na população de São João do Cariri: “Passeata cívica percorrendo as principais ruas da cidade, sendo conduzido o retrato do presidente João Pessoa, por duas senhoritas, e ouvindo-se no percurso vários oradores”. Não é difícil perceber que João Pessoa estava em transformação de uma entidade politica para religiosa, nas homenagens em São João do Cariri, ele era um santo. Se apoiar na imagem de João Pessoa foi uma estratégia política que os Britos utilizaram para angariarem a permanência da chefia política do município.

Funeral de João Pessoa

[1] A UNIÃO, 18 de jul. 1931, p.3.
[2] Atual bandeira da Paraíba, que simboliza o luto e o sangue de João Pessoa. O “Nego” faz referencia a negação do apoio de João Pessoa à candidatura de Júlio Prestes.


sábado, 3 de setembro de 2011

A Morte de João Pessoa: significados para um movimento político

26 de julho de 1930. No final daquele dia, no por do sol, na Biblioteca Pública da capital da Paraíba, uma pequena multidão recebeu uma notícia bombástica: mataram o presidente João Pessoa. “Desorientados” e catatônicos, ficaram meia hora no local, pois não estavam a acreditar nos fatos ocorridos na Confeitaria Glória no Recife. Ao acordarem para realidade, saíram imediatamente do local e seguiram para uma esquina próxima onde se localizava o sobrado da família Gaudêncio. Derrubaram o portão principal e invadiram o casarão. Cadeiras, estantes, quadros, roupas, utensílios domésticos passaram a serem arremessados pelas janelas. A noite passou a ser iluminada pela fogueira que queimava os objetos do então Senador José Gaudêncio. Naquele momento, um deputado “perrepista” passava pelo local e pedia calma, se este não tivesse corrido, teria perdido a vida.
            Este foi um dos episódios ocorridos durante um período de grandes transformações na Paraíba. Num contexto mais amplo, tratava-se do Movimento de 1930 que “pôs fim” a política dos governadores instaurada pelo presidente da República Campos Sales e deu inicio ao governo de Getúlio Vargas. Assim, o movimento teve dois conteúdos precisos, o primeiro refere-se a uma revolução política do qual ocorreu uma substituição de homens no poder (civil); o segundo, uma transformação estrutural que se iniciou com o movimento tenentista em 1922 (militar).
            Para Octávio Ianni, a revolução foi um movimento que encerrou o período liberalista característico da República Velha e uniu num mesmo projeto, a sociedade e o Estado, num mundo predominantemente burguês. As mudanças globais, ocorridas com a I Grande Guerra Mundial e a Crise Econômica de 1929, esgotaram o modelo econômico brasileiro que protegia a exportação do café.
            O Estado protegia os cafeicultores e eram por estes dirigidos.  Logo, na sucessão presidencial, havia uma alternância entre Minas Gerais e São Paulo para assumir a vaga presidencial. São Paulo devido ao seu poder econômico, Minas Gerais por ter um amplo “curral” eleitoral. A “imprudência” do Presidente paulista Washington Luís em escolher para sucessor também um paulista, Júlio Preste, inovou a formação de um partido de oposição denominado Aliança Liberal. Formado pela aliança de três Estados – Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. A chapa encabeçava o gaúcho Getúlio Vargas como presidente e o presidente da Paraíba, João Pessoa, como vice. As eleições ocorreram em 1° de março de 1930. O pleito, com todos os vícios da República Velha, deu vitória ao presidente paulista Júlio Prestes. Mas em 30 de março do mesmo ano, Vargas se manifestou ao acusar as fraudes eleitorais e os maus costumes da política nacional. Semanas depois, radicais como Oswaldo Aranha e Lindolfo Collor contataram descontentes que residiam na Paraíba, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. Um esperava pelo outro para ter alguma iniciativa até que um fato mudaria a situação: a morte de João Pessoa.


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