domingo, 5 de agosto de 2018

A BOA E VELHA SAFADEZA


Em tempos críticos sem criticidade, cujo vazio vomita ódio e rancor e a política é mitificada, ler Charles Bukowski é sempre bom. Ele é mais realista do que se espera, sua beberrice é cheia de verdades, para o mesmo a caretice mascara os sentimentos, as vontades são adaptadas e cheias de má-fé e a política é o mesmo que comer cu de gato. Escritor muito elogiado, Bukowski não se preocupa com opiniões e não se apega ao dinheiro a não ser para tomar vinho e apostar em corridas de cavalo. Escreve para não enlouquecer, pois ser sóbrio no século XX é muito complicado. 

O mundo virou uma prova em aberto onde todos os gostos e atitudes são testadas. Se não gosta, detesta, se gosta, se apaixona. Não existe meio termo, tudo é demais, do drama à comédia. O que Bukowski nos faz sentir perante este mundo de extremos? Ele descreve a falta de vida, do simples desprezo por problemas que jamais conseguiremos resolver. Fumou e bebeu a vida toda, "trepou" a vontade, não comprou o inferno dos outros, pois seu próprio inferno bastou e morreu aos 73 anos. Viveu e escreveu.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ACADÉMIE DES SCIENCES NO SÉCULO XVIII E O SABER ENCLAUSURADO

Os anos entre 1749 e 1752 foram importantíssimos para uma mudança de postura sobre o conhecimento na França e um personagem central nesta história foi Jean le Rond d´Alembert. Entre os quatro amigos que compunham o filósofos de "segunda categoria" naquela época - d´Alembert, Diderot, Condillac e Rousseau - d´Alembert era o único que compunha os quadros da Académie des Sciences, principal instituição de pesquisa da Monarquia Francesa. Ser aprovado como membro da Académie era uma das maiores glórias que um homem de conhecimento poderia alcançar.
              

Jean-Baptiste le Rond d'Alembert, pintura de Maurice Quentin de La Tour

Toda pesquisa era lida para os acadêmicos em reuniões que eram lotadas. O público que frequentava as reuniões era ávido por novas descobertas. Os membros queriam a todo custo a aprovação de seus pares, aquilo que a escritora Elizabeth Batinder denominou de Desejo de Glória, título do primeiro livro da série As paixões intelectuais publicado no Brasil pela editora Civilização Brasileira em 2007.

 A principal área de conhecimento discutida na Académie era a geometria, mas também se destacava a taxologia, a eletricidade, a química, a astronomia entre outras ciências naturais. Os membros buscavam no tesouro real contribuições para realizar pesquisas que beneficiavam o saber e o desenvolvimento do Estado em matéria de navegação, exploração e tecnologias bélicas. Umas das questões mais debatidas na Académie por exemplo, ocorreu entre Pierre Louis Moreau de Maupertuis e a família Cassini sobre o formato da Terra. Os Cassinis defendiam a Teoria dos Turbilhões de Descartes, para eles, a Terra foi originada por vórtices que alongaram seus pólos. Foi neste período que Maupertuis conseguiu realizar uma expedição à Lapônia onde provou que a Terra era achatada ao medir o arco meridiano no Círculo Polar Ártico (têm quem diga atualmente que a Terra é plana). Demorou muito para os Cassini aceitarem a prova de Maupertuis, após outras expedições, uma delas realizadas pelo próprio Cassini, a tese da Terra achatada ficou incontestável. Ao confirmar uma teoria newtoniana que retirava as glórias dos cartesianos, Maupertuis almejou o título de maior acadêmico da França, mas por não ter sido reconhecido,  abandonou a Académie des Sciences a convite de Frederico II da Prússia e passou a dirigir a Academia de Berlim. 


Maupertuis. Pintura de Robert Tournières

Foi uma época de disputas e de debates acalorados que não ficavam reservados apenas a Académie des Sciences. Esses heróis do conhecimento se encontravam constantemente nos salões das nobres adúlteras e ávidas por saber, mulheres distintas que seguiam a conduta da Corte e simultaneamente revolucionavam seu tempo ao lançar livros e teses de diversas áreas num ambiente dominado pelo sexo masculino. Claudine Alexandrine Guérin de Tencin (mãe biológica d´Alembert), Marie-Thérèse Rodet Geoffrin, Marie Anne du Deffand (amiga de Voltaire) e principalmente Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet foram as rainhas dos salões onde cotidianamente os acadêmicos se reuniam. A Srª Émilie du Châtelet, além de ter tido uma vida agitada, entrou no panteão dos filósofos franceses com destaque nas áreas de geometria e física.


Leitura de Molière por Jean-François de Troy, cerca de 1728 

Três fatos compunham a sociedade de acadêmicos franceses neste período: 1º - a grande predominância das ciências naturais como mestra do saber; 2º - a luta entre os paradigmas metodológicos de René Descartes e Isaac Newton; 3º - a ausência da opinião pública no debate acadêmico. Os três fatos contribuíram para a crise da Académie. Essa história pode ser narrada justamente pela ascensão do d´Alembert. 

D´Alembert dividiu o projeto da famosa Encyclopédie da Ilustração com o jornalista e pensador Denis Diderot que já há um tempo buscava ser aprovado como membro na Académie. Esse projeto era independente da  Académie des Sciences. Os filósofos de "baixo escalão" como Jean-Jacques Rousseau e Étienne Bonnot de Condillac foram convidados para escrever artigos. Eram pensadores que não estavam presos no sistema universal mecânico de Newton e nem na racionalidade e objetividade de Descartes. Trouxeram a tona temas nas diversas áreas que eram subjugadas pelas ciências da natureza tais como a política, a música e as artes em geral. Com isso a  Académie começou a perder sua glória para os jovens filósofos. 


Capa da Encyclopédie 

D´Alembert a partir das ironias da História estava vigando seu protetor - Maupertuis, newtoniano convicto que aprofundou as rinhas na Académie contra os cartesianos. A luta dos paradigmas separou seus membros em bolhas ideológicas, assim, a ciência pura e experimental teve que se adaptar aos paradigmas. O saber enclausurado na Académie cedeu espaço a um novo catalizador de conhecimento: a opinião pública. O conhecimento não era monopólio da instituição do rei Luís XV, ele ganhou artigos em jornais e livros que foram proibidos pela censura - tais como o Espiríto das Leis de Montesquieu e a História Natural de Buffon.

O ano de 1952 foi o ano da vitória da Encyclopédie sobre a Académie des Sciences. Todo conhecimento passaria pela opinião pública e o Estado absolutista buscou calar esses novos filósofos. Nascia assim o movimento conhecido como Ilustração e o germe ideológico da maior revolução política da história.

Hoje percebemos que as Universidades, frutos das antigas Academias passam por período de crise onde seus projetos e teses não estimulam mais a sociedade a pensar ou a buscar conhecimento. A opinião pública está afastada da Academia, seus professores gloriosos disputam títulos e publicações entre si para enriquecer o currículo e assim receber todas as glórias tal como queria um Maupertuis. 

Estamos vivenciando hoje no Brasil novos d´Alemberts que saem do enclausuramento ideológico das universidades e buscam construir saberes com as diversas categorias sociais. Homens e mulheres que são convidados constantemente aos "salões"  dos cafés filosóficos e que levam os indivíduos a pensarem por si mesmo, a não seguir bolhas ideológicas. Não sei onde vai parar as contribuições de Clóvis de Barros Filho, Leandro Karnal, Viviane Mosé e Mario Sérgio Cortella, mas que um novo mundo do conhecimento está deixando seus germes proliferar, isto é evidente.          



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O RETORNO DO ABSURDO



Dias sombrios estamos vivendo. Não me lembro de um período em que a extrema-direita aparecesse com tanta força desde o nazismo de Hitler. O que aconteceu em Charlottesville, no Estado da Virgínia nos Estados Unidos foi um absurdo. Centenas de homens e mulheres carregaram tochas pelas ruas da cidade fazendo saudações nazistas. Neonazistas, extremistas raciais sempre existiram no mundo ocidental, o problema é que eles foram para as ruas afirmar Sou nazista, sim, fato que a princípio é um absurdo, principalmente para quem trabalha na área de ensino como professor de Humanas. 

O que aconteceu para que um episódio assim viesse a tona? Coloco como causa principal a ideia de "fim da história" de Francis Fukuyama. Defendida em 1989, após a queda da URSS, a vitória da democracia liberal e do livre capitalismo levaram a evolução humana ao ápice, tínhamos assim alcançado o Estado ideal tal como previu o filósofo Hegel no século XIX. O mundo globalizado nos paralisou e as ideias findaram assim como os últimos resquícios da metafísica. Passamos a viver num mundo técnico, ápice da Revolução Industrial. Até nossas ações deixaram de ser ações próprias para serem frutos de experiencias neurológicas. O que sobrou? O vazio! O perigoso vazio cujo fruto é o absurdo.

Mas todo vazio serve de acúmulo. Alguns jovens preencheram esse vazio com a ideologia extremista do Estado Islâmico, uma minoria com as ideias marxistas, já saturadas, que pouco preenche este vazio. O vazio ocasionado pelo fim da história ganhou força quando Donald Trump, o candidato absurdo à presidência dos Estados Unidos, ganhou as eleições absurdamente. Seu discurso contra imigrantes juntamente com a proposta de construir um muro separando o país das maravilhas do México inflamou o discurso nazista.

Estamos vivendo tempos de ignorância. Ignoramos a História, ignoramos a Filosofia, ignoramos a Ciência. O pós-modernismo diluiu a História, o passado pode ser mudado ao bel prazer dos nazistas, assim, o Holocausto foi uma "invenção" historiográfica. A Filosofia por não ser basear em evidências experimentais e por não seguir a lógica de mercado, se perdeu em sua "própria" lógica, que organiza o discurso, mas que não diz nada, assim ela perdeu sua utilidade, fato que abriu espaço para falácias ganharem sentido tal como a supremacia negra sobre os brancos e o fato das mulheres dominarem os homens (esse discurso existe e tem milhares de defensores). A Ciência é desvalorizada em detrimento de discursos políticos (melhor exemplo é o próprio Trump sobre a questão ambiental), pseudociências são divulgadas como conhecimento em redes televisivas, nas escolas a Religião predomina quando o assunto é a Evolução, ETs, espíritos e teorias cientistas mirabolantes recebem mais atenção do que temas mais urgentes, mais humanos. Ou seja, como alertou Sagan no livro O Mundo assombrado pelos demônios, a ignorância está derrotando o conhecimento. E qual é o fruto da ignorância? O absurdo.

Estamos entrando num sonho tal como os nazistas entraram com a ascensão de  Hitler e só uma tragédia explosiva pode nos acordar. Espero que o conhecimento volte a predominar nestes tempos sombrios, antes que seja tarde e o absurdo nos devolva ao caos.            

terça-feira, 24 de maio de 2016

WALDEN OU A VIDA NOS BOSQUES

Chega um momento que cansamos de ser superficiais ou de passar pelos mesmos lugares de concreto, escutar os mesmos sons e medir tudo pela riqueza. Ao me sentir assim que assisti o filme NA NATUREZA SELVAGEM (ver o post abaixo). Numa das cenas do filme aparece os livros que influenciaram Alex Supertramp. Além de Tolstoi e Jack London, aparece o livro Walden ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau. Comprei a edição da L&PM Pocket de imediato e a devorei.


O livro foi escrito com total indiferença ao academicismo e de tudo aquilo que preza os padrões de uma leitura erudita. Thoreau narrou sua vida durante dois que residiu no Lago Walden localizado em Concord no Estado de Massachusetts (EUA). A narração de sua experiencia nos bosques mistura-se com declarações filosóficas e críticas ao modelo de vida que valorizava o luxo - típico da era industrial no século XIX nos Estados Unidos. Um exemplo é sobre a vestimenta. Exposta na parte em que trata a economia, para Theoreau, a roupa deveria ser vestida pelo homem enquanto esta for útil, sem luxuria, sem necessidade de trocar pelo mero prazer de obter um objeto novo.
A felicidade deve ser construída por cada homem de acordo com suas convicções. Para Thoreau, a felicidade DELE estava em viver em contato com Natureza, ao valorizar todos os seus frutos: da casa à pesca, das leituras de Homero aos plantio de feijão, do som da locomotiva aos sons dos pássaros, da convivência com os animais à convivência com os vizinhos. 
O americano segue na contramão da sociedade industrial e recria o modelo de liberdade que faz com que o ser humano reencontre a natureza. Sua obra é de estimada importância nos dias atuais, nos sentimos cada vez mais manipulados pelo consumismo e pela vida urbana. Necessitamos restabelecer nosso elo com a natureza, ou seja, "pensar como uma montanha" para evitarmos catástrofes ambientais. 
Estava passando por um período de autoconhecimento durante a leitura e do livro, e Thoreau me ajudou a pensar muito, Abaixo transcrevo alguns trechos que me fez admirar as ideias do escritor.

"Os únicos seres felizes no mundo são os que gozam livremente de um vasto horizonte."

"Imposturas e ilusões são estimadas como as mais sólidas verdades, ao passo que a realidade é fabulosa. Se os homens observassem constantemente apenas as realidades, e não se deixarem iludir, a vida, comparada as coisas que conhecemos seria como um conto de fadas ou uma história das "Mil e Uma Noites".

"A manhã, que é a parte mais memorável do dia, é a hora do despertar. É quando temos menos sonolência; e durante uma hora, no mínimo, desperta em nós uma parte que dormita o resto do dia e da noite. Pouco se pode esperar do dia, se é que pode ser chamado de dia, para o qual não somos despertados para nosso Gênio, mas pelas cutucadas mecânicas de algum criado, não somos despertados interiormente por nossas aspirações e forças recém-adquiridas, acompanhadas pelas ondulações de uma música celestial, em vez de apitos da fábrica, e um perfume preenchendo o ar - para uma vida mais elevada do que a anterior ao nosso sono, e assim a escuridão frutifica e se revela boa, tanto quanto a luz." 





terça-feira, 17 de maio de 2016

TRÊS FILMES SOBRE "PEGAR A ESTRADA"

            Para quem gosta de viajar, a estrada é quase um templo. Comparamos uma estrada à vida, cheia de retas, curvas, encruzilhadas. Cada um possui um motivo para fazer esta peregrinação, as vezes até sem destino, só pelo prazer de estar viajando ou por procurar o "melhor lugar" para sossegar o espírito.
            Indico aqui três filmes que abordam direta ou indiretamente o tema. Cada um com características diferentes, mas com o espírito aventureiro em chamas no coração.


NA NATUREZA SELVAGEM (2007)

"Na Natureza Selvagem" (Into the Wild) estreou em 2008 com direção de Sean Peen. Conta a história real de Christopher McCandless, um jovem que ao concluir os estudos, decidiu largar a vida autoritária dos pais e a "civilização" para sobreviver sem luxo e ganância. Assim ele seguiu viagem pela costa leste americana e conheceu várias pessoas que mexeram com sua vida. Sua meta era chegar ao Alasca e viver intensamente uma vida selvagem, parecido com a vida de Thoreau no lado Walden. O encanto do filme é como uma vida nômade e desprendida de riquezas materiais pode ressignificar a convivência entre as pessoas e a natureza. Como foi possível no final do século XX um garoto contrariar ideologias dominantes e fazer um retorno ao seu estado de "bom selvagem"? É isto que encanta no filme. A trilha sonora é espetacular e faz nos sentirmos em estado selvagem com as músicas de Eddie Vedeer. A vida na estrada é um desapego das cidades, do sonho de ter um bom emprego e de seguir as ideias impostas pela sociedade. A cada lugar que passava, Alex Supertramp (como se denominava McCandles) deixava um marca: é possível adquirir muito conhecimento com a estrada. O filme é realmente encantador e me arrebatou, hoje penso a natureza de forma diferente e sei que para ser feliz é necessário ter duas constantes: desapego a sociedade e uma boa companhia.




NA ESTRADA (ON THE ROAD) (2011)

Dirigido pelo brasileiro Walter Sales, "Na Estrada" é a adaptação do principal livro de Jack Kerouac. O filme narra a vida na estrada de dois amigos - Sal Paradise (ou o próprio Kerouac) e Dean Moriarty. Os dois amigos atravessam as estradas dos Estados Unidos na base do sexo, das drogas e do jazz. O filme também é uma crítica a sociedade americana e seus princípios morais. Narra a própria história do Kerouac, que ao perder o pai, busca inspiração para escrever um livro e encontra na amizade com Neal Cassady (Moriarty no filme) um mundo totalmente diferente. A história narrada por ele influenciou a cultura americana na metade do século XX tal como o movimento hippie e os Beatles. A estrada, assim como "Na Natureza Selvagem" é um espaço de libertação da moralidade civilizatória. O sexo é explícito e o consumo da maconha muito natural. Antes do Rock, dos hippies, os Estados Unidos estavam bem adiantados na contracultura. A estrada representa a vida no seu ápice, nada melhor do que sair sem destino e estar feliz por estar do lado de seus melhores amigos. Pegar a estrada para ser você mesmo não tem preço (e nem responsabilidade).



NEBRASKA (2013)

Filme de Alexander Payne, Nebraska narra o drama de um idoso alcoólatra que acredita ter ganho 1 milhão de dólares. O anúncio era uma propaganda de revista, mas o senhor Woody Grant não tira a ideia da cabeça e mesmo a pé segue em direção ao Nebraska em busca do prêmio. Seu filho David mais novo, diante uma separação resolve levar o pai para pegar o prêmio e assim os dois seguem pela estrada. David  aproveita a viagem para conviver mais com o pai, frequentam bares, hotéis e chegam a passar um fim de semana na cidade natal que originou a família. Woody, diferente dos personagens principais, é um conservador em pessoa que vê a família de maneira arcaica. O filme é lindo, pois mostra o amor de um filho por seu pai e como este sabe que não adianta discutir com os mais velhos. A estrada no filme não é uma aventura, mas sim o caminho que despertou e rejuvenesceu um idoso que já aparentava estar morto para a família. Assisti o filme de maneira serena, sempre quis viajar com meu pai (ele é caminhoneiro), mas ele não deu oportunidade, ainda estou a espera.









quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Enciclopédia da Ilustração no Brasil

A editora Unesp - uma das melhores atualmente - publica neste mês em cinco volumes a enciclopédia que revolucionou o mundo durante o século XVIII. Com o nome "Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios", a obra revolucionou o mundo Ocidental ao criticar o absolutismo e o fanatismo. Os volumes estão organizados de acordo com as seguintes questões:

Volume 1 - Discurso preliminar e outros textos.
Volume 2 - O sistema dos conhecimentos
Volume 3 - Ciências da Natureza
Volume 4 - Política
Volume 5 - Sociedade e artes 

A Encyclopédie foi organizada pelos filósofos Denis Diderot e Jean le Rond d´Alembert e teve a participação de diversos pensadores tais como Rousseau, Voltaire, Turgot e Montesquieu. O impacto da obra fez com que os organizados fossem perseguidos pela coroa francesa e pela Igreja. A intenção primordial foi reunir em publicações todo o conhecimento dado pela Razão ao Homem. Assim, a Enciclopédia ficou dividida por três categorias - Memória/História; Razão/Filosofia; Imaginação/Poesia. Na coleção da Unesp estarão disponíveis 298 verbetes de 37 autores. A organização foi dirigida pelos professores Maria das Graças de Souza e Pedro Paulo Pimenta. Cada livro custará em torno de 78,00 reais. Vale cada centavo ter uma obra tão revolucionária em sua estante de livros.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Da História à Filosofia

Após encerrar o mestrado e defender a dissertação sobre Oligarquias e Cultura Política, fui me afastando do tema que tanto tempo dediquei e me reaproximei daquilo que REALMENTE gostava de estudar no curso de História: a crise da modernidade. Hoje compreendo que a crise é inata a própria história da sociedade ocidental e que existe por trás da linearidade (e também da circularidade) da História duas dialéticas que buscam resolver os problemas da nossa existência. A primeira dialética é aquela exposta por Marx baseada na luta de classes, a segunda teve origem na crise das cidades-estados da Grécia Antiga, que seria a dialética entre a moral e a política ou, o foro interior e o foro exterior. Vale salientar que a política ficou impregnada em mim, não para fazer de meu ser um pesquisador, mas sim para "teorizar" a crise política. Ora, Teoria é uma constatação racional de um sistema científico que busca estruturar um objeto, mas ao me perguntar se o mundo ocidental está em crise, meu objeto passou a ser definido para além do empírico, ou seja, de maneira puramente racional. Ao racionalizar a crise, acabo entrando em outra esfera de conhecimento que não é científico, mas sim filosófico. Aqui me deparo com um problema enorme que é utilizar um método de racionalizar que dialoga com a História e a Filosofia da História. Do positivismo histórico para cá, a História buscou se livrar da Filosofia, mas no meu entendimento, quando um estudante de História pergunta "o que é história", este já está fazendo uma pergunta filosófica. Não há como fugir. Assim, pode parecer retrocesso (para os pragmáticos), mais em vez de me preparar para um doutorado em História, comecei a cursar uma graduação em Filosofia justamente para me aprofundar na Teoria (Filosofia) da História. Nestes dois anos de cursos, andei por terras que jamais como pesquisador andaria. Conversei com Hanna Arent e Pierre Bourdieu sobre a condução humana, devaneei nos bosques de Paris com Rousseau, visitei os lares dos proletariados em Manchester com Engels, deixei de ser ateu com Kant e busquei ser autônomo ao conversar com Nietzsche. Dessa maneira, apesar dos pesares e das ilusões perdidas, estou satisfeito com meus estudos. Espero contribuir, daqui das montanhas, como vocês do centro do mundo estão caminhando para uma catástrofe que não pode ser pesquisada só pelos métodos das ciências sociais e da historiografia, mas ser racionalizada por toda forma de conhecimento possível.      

Reformulação

Depois de um bom tempo parado sem escrever, resolvi retornar ao à escrita do blog. Passei uns anos preguiçosos só obstinado na leitura e nada de escrita. Li de tudo um pouco: Marx, Mészaros, Martin e só para ficar nos M. Mas mal comentei o que li. O blog também serve como um arquivo histórico para a construção metodológica do escritor e também para guardar seus problemas e questionamentos. Da História estou me enveredando na Filosofia, na Literatura, entre outros ramos do conhecimento que me dão prazer. Hoje estou mais caduco em relação a uma Teoria da História que não nega seu teor filosófico. O mundo mudou e a gente vai mudando com ele. Só percebemos a mudança quando lemos algo que escrevemos a 3 anos atrás. É nesta perspectiva que retorno ao meu querido amigo blog - que sofreu com o abandono devido as redes sociais - com o intuito de escrever e me ler daqui a uns três anos e simultaneamente não deixar o que eu apreendo dentro de mim.  Espero que seja o primeiro de vários artigos semanais e que a preguiça corra longe. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Maze Runner: Correr ou morrer... Um livro sobre liberdade (ou a falta dela)



Maze Runner: Correr ou morrer é o primeiro livro de uma série escrita pelo americano James Dashner. Trata-se de literatura infanto-juvenil, mas que atraiu a atenção de muitos adultos no mundo todo. 
A Palavra Utopia significa lugar nenhum e é isto que Maze Runner é. Até onde me lembro, nunca tinha lido um livro com um começo tão misterioso quanto este, tanto... que qualquer coisa eu possa descrever deste livro passa a ser spoiler. Um garoto aparece dentro de uma gaiola num mundo totalmente estranho rodeado por adolescentes que o chamam de trolho e cara de mértila. A partir daqui não posso falar mais nada...
Em geral adorei a narrativa e o li em três dias. Trata-se de uma realidade alternativa (ou distopia). Um ambiente que apresenta uma organização social eficiente, mas que carrega em seu bojo o sentimento da falta de liberdade. Presos numa clareira localizada no centro de um enorme Labirinto, os jovens tiveram que aprender a sobreviver sobre regras fortíssimas, mas o que eles não esperavam era a mudança. Tudo muda com o tempo, só que a mudança descrita no livro foi drástica e força o grupo a quebrar suas regras. A cada quebra de regras uma novidade, e aquilo que parecia ser (que nem a caverna de Platão), deixa de ser.
A Liberdade (a liberdade é uma jaula mais espaçosa) é um dos temas que pode ser trabalhado com o livro. Nos dá a sensação de que aquilo é a nossa vida. Fomos colocados na Terra sem lembrança de nada sobre o universo e tivemos que aprender a sobreviver a partir de regras sociais, não estamos acostumados a mudanças e quando elas acontecem, nos desesperamos. Outra pergunta que nos faz pensar: se tudo está em ordem para que mudar? O livro traz uma resposta - mudar para conhecer... conhecer para ser livre... Daí o conhecimento - que aparece como mistério do Labirinto - lembra muito a ideia de Aristóteles sobre a felicidade, apenas o conhecimento pode nos fazer felizes. O livro deixa essa dúvida do qual poderemos ter uma resposta concreta ao ler a Prova de Fogo, continuação da série.
O livro é muito bom e em nenhum momento cansa o leitor. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Catástrofe: a Primeira Guerra Mundial


Leitura tão demorada quanto a guerra.
Senti necessidade de ler algo sobre a Primeira Guerra Mundial nestes 100 anos de rememoração. Fiquei na dúvida se lia "A Beleza e a Dor" de Peter Englund ou o "Horror da Guerra" de Niall Ferguson. Mas os dois me desencantava... O primeiro por se tratar de história das sensibilidades e o segundo porque li um livro de Ferguson e notei que não tinha tirado tanto proveito. No começo do mês me deparei com este livro na Livraria Saraiva e resolvi compra-lo. Muito bem ilustrado, com mapas, uma belíssima capa e uma vontade de ler enorme, já que o livro demonstrou ser muito elogiado-resolvi compra-lo por uns 50 reais.

Comecei a leitura querendo ler tudo em quatro dias, passei quase 15. Assim como a Primeira Guerra, o livro ultrapassou minhas expectativas de tempo de leitura. O Max Hastings é mais um jornalista curioso do que um historiador jornalista. O começo do livro foi encantador, nos cerca da atmosfera de nacionalismos, paixões e burrices políticas de todos os países participantes. Inicialmente ele me prendeu, na preparação e nas batalhas sua narrativa era impecável (de acordo com uma linguagem jornalistica e não historiográfica). Mas batalhas, estrategias e novamente batalhas me levaram ao cansaço. As vezes até me perdia na leitura e tinha que voltar um parágrafo para ler de novo. Cheguei a pensar que o livro não terminaria nunca. O mais proveitoso (se eu soubesse antes teria lido "A Beleza e a Dor") foi o cotidiano da guerra: cartas, histórias, mortes, sobrevivência de feridos, abates de batalhões inteiros. Ele não focou apenas na História Militar (que era as partes mais chatas do livro), mas em toda repercussão que os vários fronts traziam para dentro e fora da guerra.

Esperava mais, mas não me arrependo de te-lo lido.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Facebook: o guardião de memórias ou a privacidade do passado escancarada

É inegável que as redes sociais trouxeram grande contribuição para os dias turbulentos que vivemos. Num mundo cada vez mais individualista, pessoas se escondem uma da outra em muros de concreto e que ao se encontrarem não sabem se é normal dizer bom dia. O facebook, como rede social mais popular do Brasil aboliu (ou aumentou) este individualismo. É normal encontrarmos "boa noite" dados aos ventos com duas ou três curtidas. O facebook sociabilizou mais as pessoas e o resultado disto está concretizado com as Manifestações de 2013. A rede social azul foi a responsável por unir tantas pessoas em prol de causas dispersas.

Mas além de sociabilizar pessoas, a rede social é um aparato de fontes para se estudar biografias. Quer saber o que pensa, como age, os lugares que teve, as pessoas que conviveram, as opiniões, os sentimentos de um indivíduo? Entre no facebook. Lá está tudo... Minha vida de 2010 para cá transformou-se numa fonte riquíssima, guardiã de minha memória graças a rede social. Lá vejo como mudei meu pensamento sobre política e até mesmo como pessoas foram embora de minha vivência sem avisar.

Nosso passado recente está escancarado no facebook apesar de todo controle de privacidade disponível no site. A cada dia, mais e mais "amigos" são adicionados e daí surge uma propaganda de si mesmo, como por exemplo, uma postagem de uma letra de música é utilizada para definir o que você É naquele momento. Daí a privacidade passa a ser uma ilusão. Estava me sentindo muito incomodado com meu passado recente, meu passado não era mais meu. Fiquei preocupado... Meu face não era mais meu. Além disso, muitos "amigos" me visitavam e me escreviam, e eu, no meu extremo individualismo, me sentia importunado a responder.

Faz dois dias que cancelei minha conta. Meu passado foi apagado (além do que eu já tinha deletado: deletar é diferente de apagar). Memórias foram embora e estou reconstruindo uma nova alteridade. Escrever neste blog para pessoas que nunca ouviram falar de mim é mais reconfortador do que escrever para aqueles que um dia já ouviram falar de mim. Aqui meu passado é outro.


 

quarta-feira, 12 de março de 2014

A Crise Política atual e suas críticas

Costumeiramente, críticas aos sistemas políticos atuais escancaram na mídia tanto da esquerda (Carta Capital) quanto da direita (Raquel Sheherazade). No centro da crítica encontra-se a questão da representação do Estado e da cidadania. Casos de corrupção, violência, censura, abuso de poder, etc... São temas fortes que promovem jornalistas e disseminam um estado de crise. 



Estamos vivendo o fim dos tempos tal como descreveu o filósofo Slavoj Zizek. Este coloca como uma das causas do fim da sociedade ocidental a crise do liberalismo: utopia que causa um desanimo profundo e gera uma depressão social sem precedentes. As pessoas vivem um hedonismo exacerbado numa democracia representativa ilusória, ou seja, as pessoas fingem que são livres e o governo finge que não é opressor.

Na verdade esta crise que faz que crer que estamos no final dos tempos é fruto da separação entre a política e a moral ocorrida durante a criação das monarquias absolutistas. O foro interior do indivíduo foi abafado e só o foro exterior pode ser admitido, isto sob a tutela política do Estado. Durante o século das luzes houve a tentativa de unir a moral à política sob a coordenação do Estado (trata-se da vontade geral rousseauniana). A classe burguesia - que se legitimava  como detentora da moral perante a política do Estado - para esconder suas intenções políticas utilizou da filosofia da história para afirmar que era detentora do futuro. Dizia ser apolítica, mas era política até os ossos. 

E o que vemos hoje é uma crise mal resolvida deste mundo burguês. Ninguém sabe como a democracia representativa "representa" seus cidadãos, pois parece que Estado e cidadania estão sempre numa queda de braço. Perante esta disputa ainda vivemos numa época de crise e crítica do Estado que nos parece estar longe de ser resolvida. 

Vivemos tempos de desesperança, consequência da crise. Passamos a imaginar um futuro decadente onde a tecnologia sucumbirá o Homem. O Cinema apocalíptico não nos deixa esquecer nossas alternativas... O Estado ou a falta dele alimenta nossa imaginação. Só falta saber até quando a crise perdurará... Marx tentou explicar.



Aconselho que antes de criticarem o PT ou Aécio Neves e suas formas técnicas administrativas, saibam que o problema que assola a representação do cidadão no Estado é tão antiga quanto a Democracia. Vá com calma companheiro.

Em breve pretendo explicar passo a passo a teoria de Koselleck sobre a Crise e Crítica do Estado Moderno.   



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Direitos Humanos: metas de uma exposição

Resolvi trabalhar como tema central em minhas aulas de História neste ano de 2013 a questão dos Direitos Humanos. Busquei fugir propriamente da historicidade do conceito. Foquei na questão das diferenças e de como os direitos humanos pode contribuir para amenizar o preconceito em nossa sociedade. Assim alguns temas foram escolhidos a dedo, sabendo que vários outros podiam entrar no projeto. Trabalhei com homofobia, racismo, violência contra as mulheres e bullying. Esta foi minha principal meta. Na semana cultural da Escola Estadual Pedro Targino em Cacimba de Dentro tive a ajuda de vários alunos que contribuíram para que o projeto fosse efetivado.  Não quis propriamente enfeitar uma sala e expor o projeto preocupado mais com a estética. A mensagem é mais importante do que qualquer visualização estética. De antemão, a mensagem foi bem passada e o projeto recebeu quase 2.000 visitas.



Atualmente o projeto está em exposição na Escola Estadual Presidente Costa e Silva em João Pessoa. Para que post não fique com um texto longo. Nos próximos dias descreverei os passos do projeto e uma crítica a exposição sobre Direitos Humanos que ocorreu na Escola Senador Humberto Lucena em Cacimba de Dentro.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A Idade de Ouro ou a busca da felicidade de Minois



Uma das perguntas mais frequentes em aulas de psicologia ou filosofia é o que procura o homem? Todos pensam e refletem, mas nada sai da cabeça. O professor então com um sorrisinho maroto responde: "a felicidade", "todos nós queremos ser feliz". Mas o que é a FELICIDADE? O conceito é um dos temas mais frequentes da filosofia, dos escritos de Heráclito até os pós-modernos, alguém sempre quis afirmar o que é a felicidade. Penso que nunca iremos chegar a uma resposta, pois o conceito de felicidade (assim como todos os outros conceitos) mudam com o tempo. Então prefiro trabalhar o tema de forma mais histórica do que filosófica. É o que faz de maneira esplêndida o historiador francês Georges Minois no livro A Idade de Ouro: história da busca da felicidade.  A partir do Mito da Idade de Ouro de Hesíodo até a felicidade do gene, Minois descreve a busca da humanidade para alcançar a felicidade.   
O livro possui uma leitura agradável com a exposição de vários documentos sobre o conceito de felicidade escritas por filósofos e pensadores políticos.

 É uma leitura importante para quem estuda a formação da modernidade a partir dos ideais burgueses. Já que uma das motivações dos revolucionários franceses foi fazer uma sociedade acima de tudo feliz. Em alguns trechos fica claro a desistência dos humanos de procurar a felicidade, ou seja, nem todo momento ela foi positiva. 
Apesar da desistência de alguns, a felicidade sempre vai existir em algum canto, se não for na Idade de Ouro pode ser no futuro ou na vida após a morte, mas sempre a humanidade vai procurar a felicidade em algum canto, nem que seja na inexistência. A História da busca da felicidade mostra acima de tudo a fluidez desta mesma felicidade que tanto buscamos. Recomendo a todos esta obra. 
Georges Minois (1946-   )


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Crítica e descrédito: Ciências Humanas e a longa distância da Sociedade




Há um distanciamento muito grande entre o pessoal de humanas e a sociedade, por incrível que pareça, a maioria do pessoal de humanas quer continuar na Universidade, no universo acadêmico e esquece seu papel utilitário, e quando uma coisa deixa de ser útil, perde validade, fica sem valor que nem as Ciências Humanas. Além disso há o menosprezo pelo saber que transforma a maioria dos formados em Ciências Humanas em analfabeto político a partir de cursos aligeirados onde sempre prevalece o “jeitinho brasileiro”. Mas a utilidade e a valorização das Ciências Humanas esta estampado na sociedade, é só observar as mazelas de nosso país e o número de analfabetos políticos que não refletem e nem se engajam, que como mesmo eu disse, desfilam nos pátios do pequeno universo das universidades onde produz um conhecimento medíocre para seus pares sem valor nenhum para a sociedade. Tem tanto tema e grupos de estudos por aí que pode ser comparado com a história da vinda do ET na cidade de Coxixola em 1819 enquanto somos enganados constantemente por viver em mundo de fantasia chamado Once upon a time.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vivendo no fim dos tempos



O liberalismo é uma utopia; devemos retornar a Hegel e ultrapassá-lo; o fundamentalismo é politizado na era pós-política; fingimos que o aquecimento global não existe; o sujeito perdeu a transcendência após o trauma causado pelo capitalismo; a democracia não é uma forma perfeita de regime político e deve ser superado para resolver os problemas comuns da humanidade e por fim devemos recomeçar o caminho evitando os erros do socialismo e buscar uma maneira de efetivar o comunismo. São estas e várias outras questões que são tratadas no livro Vivendo no fim dos tempos do esloveno Slavoj Zizek. O livro não é apenas para filósofos, mas para todos os estudiosos de todas as diversas formas de conhecimentos (do arquiteto ao motorista da Coca-Cola). Ele é provocativo e busca quebrar vários paradigmas postos na era pós-socialista. É um livro que reflete as contradições do capitalismo e sua maneira teológica de seduzir o outro. 
A sensação após a leitura é de que alguma coisa deve ser feita e não uma manifestação democrática do mais do mesmo para a mídia divulgar "Tá vendo! É a democracia! Todos têm liberdade de reclamar" Para barrar o trauma (como o desemprego em massa, por exemplo) é necessário ir a luta. O mas legal é que depois de cinco meses de leitura, vejo na internet a manifestação em São Paulo contra o aumento da passagem de ônibus. Mas uma manifestação que ultrapassa as fronteiras do respeitável democrático e que a mídia liberal utópica coloca os sujeitos traumatizados como vândalos e não como manifestastes que sofrem no Real.
Leitura importante em tempos de fim de mundo! 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"E se?" na História em Slavoj Žižek



Slavoj Žižek é um filósofo crítico da sociedade pós-moderna. Esloveno, Žižek tem um pensamento original que critica a utopia liberalista e o socialismo vigente de um esquerda esfacelada da queda do muro de Berlim. Seus livros viajam por uma gama de temas e áreas do conhecimento que nos fazem refletir sobre o estado pós-traumático e traumático do capitalismo. 
Busco em sua obra a visão que o mesmo tem sobre História como disciplina para se obter conhecimento da sociedade no tempo, confesso que tenho encontrado "coisas" que a priore seriam logo criticadas pelo universo acadêmico, e uma dessas coisas foi o uso do "e se?" na História. "E se" Lênin não tivesse feito a revolução?  "E se" a Alemanha tivesse vencido a primeira guerra mundial? Logo a resposta de um professor que se denomina do "alto clero" seria assim: "não existe o "se" na História, pois não estudamos o que não aconteceu, mas o que aconteceu".
Para Slavoj Žižek o "e se?" deixa um espaço aberto para reflexão. 

Essa percepção de nossa realidade como um dos resultados possíveis de uma situação "aberta", muita vezes, nem mesmo o mais provável, a ideia de que outros resultados possíveis não são simplesmente eliminado, mas continuam assombrando nossa realidade "verdadeira" como espectros daquilo que poderia ter sido, dando a nossa realidade um status de extrema fragilidade e contingencia  não é de modo algum estranho ao marxismo; na verdade, baseia-se nesta percepção a sensação de urgência do ato revolucionário. (Vivendo no fim dos tempos, p.99)

Aí cabe ainda a ideia do determinismo histórico, do qual estamos fadado a um destino (Žižek trabalha neste caso especificamente com o marxismo). A revolução não veio porque passou do prazo e a pergunta para tal questão é "e se" fosse feito em determinado momento? Isto cria uma atmosfera de critica à realidade "verdadeira" e deixa tudo preparado para a primeira brecha que aparecer no sistema para se fazer a revolução. Segundo Žižek, foi assim que Lênin  perguntou antes de fazer a revolução: "e se não agirmos agora?". Da mesma forma, o passado deve ser olhado como um mar de oportunidades para refletirmos como chegamos no estagio atual, "como seria se fosse de outra forma?".  Žižek defende que devemos "pensar para trás" e pensar nas decisões que nos fizeram chegar no estagio atual, ao mesmo tempo, questionar estas decisões. No momento aberto das decisões, devemos refletir sobre nossas escolhas no contexto em que estamos vivendo, que escolha certa tomar...
Vale salientar que para o filósofo Žižek o liberalismo foi uma utopia construída que legitimou a realidade, mas que vários modelos de sociedade foram propostos além deste, o fato do liberalismo ser o vencedor não quer dizer que ele seja o modelo REAL de sociedade (este modelo criou a realidade). Sendo assim, pensar como seria caso outras alternativas de governo tivessem se estabelecido no século XX serve para refletirmos sobre as bonanças e maldades do sistema vencedor. 
A própria História é pensada de acordo com a sociedade que esta produzindo a Historiografia, o passado é remodelado constantemente e os "e se?" servem de críticas aos sistemas "inimigos", e as vezes, caso algo dê errado, os "e se" passam até a  se oficializarem.
Para além da historiografia, os "e se?" começam a invadir outras áreas como o cinema, exemplo máximo para o filme Bastados Inglórios de Quentin Tarantino (Hitler morre de uma maneira própria do diretor - e se a resistência francesa matasse o Fuhrer?).
Seria até uma maneira interessante de pensarmos o mito das mudanças radicais pacíficas do Brasil... E se 1968 derrubasse a Ditadura? E se Vargas não tivesse se suicidado? E se a América portuguesa tivesse perdido a batalha dos Guararapes? E se o Levante Comunista tivesse dado certo em 1935? É necessário pensarmos para trás para saber quais escolhas e não escolhas fizeram-nos chegar no estágio onde estamos. Porém, se não pensarmos assim, estaremos determinando a História a partir de apenas daquilo que aconteceu.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Da Carnis levale a outros espaços sociais: imagens de carnavais antigos

Carnis levale é o termo grego que originou a palavra carnaval que significa retirar a carne da mesa. A festa é ligada ao dia que antecede a Quaresma. A festa em si existe desde a antiguidade, da Babilônia a Roma e seguiu traços particulares no cristianismo. Em geral, a festa esta ligada a troca de posições de classes sociais e a liberdade de "pecados" antes da abstinência da Quaresma. 

"Três bufões do Carnaval", 1642

Foliões, Williem Cornelisz Duyster, 1620



"O Carnaval com figuras mascaradas"  de PierreBergaigne (1652-1708)


Eugène-Charles-François Guérard (1821-1866)
Le bal de l’opéra

Francisco de Goya (1746-1828)
The Burial of the Sardine

Mose Bianchi (1840-1904)
Carnevale a Venezia (Invito alla danza)

Adrien Moreau (1843-1906)
The Carnival Procession

Pieter Bruegel the Elder (1530–1569)
Der Kampf zwischen Karneval und Fasten

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

História Local e Política em sala de aula



De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN´s) a história local aparece como tema a ser ensinado nas séries iniciais do Ensino Fundamental. A família, o bairro, a cidade e suas instituições são temas de relevo definidos pelos PCN´s. Embora seja relevante para o Fundamental I, a história local detém grande utilidade no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio. As experiências cultural, social, política e econômica carregam complexidades que não são digeridas pelos alunos do Fundamental I, fato que inverte o tema em relação da capacidade cognitiva dos alunos. 
Atualmente muitos professores sofrem porque os alunos do Fundamental II e Médio não se interessam pelo conteúdo transmitido pelos professores. Eles não conseguem compreender a utilidade de temas macros em suas vidas, estudam "um mundo de fantasia" fora do cotidiano. Um Europa com um mapa "feio" e sociedades exóticas como Egito e Roma podem ter a mesma relevância que outras sociedades fictícias como A Terra Média e Westeros. São temas que fogem da realidade dos alunos, assim o professor passa a ser um alienígena em sala de aula. Logo nos perguntamos: "qual o universo mais prático de um aluno"? O mundo em que ele vive a começar pelo Local! Aquele do qual ele se locomove apesar da diminuição de distâncias do mundo globalizado e digital. Assim, não negando a importância da História Global, a História Local é uma ferramenta importante para fazer que nossos alunos pensem historicamente, tarefa de incrível complexidade para o Fundamental I.

A Política estampada nos livros didáticos ainda está presa à perspectiva historiográfica positivista de homenagear a Nação e seus heróis. A política se limita ao que esta acontecendo no âmbito nacional. Exemplo: Independência, Regência, República Velha, Revolução de 30, Populismo, Ditadura Militar e Redemocratização, fatos que unem macros períodos políticos da História do Brasil. O aluno não se aquilo influenciou/influencia no seu cotidiano, se na cidade ou na região campesina tais fatos pesaram na mudança de experiencias de seus "iguais". O local fica despregado da História, a história que ele estuda é do Recife, do Rio de Janeiro e de São Paulo. E a sua história? Quem representou sua região durante a República Velha? Qual a relação da sociedade local com a centralização política?  Seu local participou da Revolução de 1817? As respostas são desafios que cabem aos professores de História responderem a seus alunos e chama-los para o debate político local, para assim, perceberem que são sujeitos de ação e definir suas estratégias de mudanças e permanências. São muitos os desafios para esta missão a começar pela confecção do material didático, tema que trabalharei em outro post. 





terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Araruna no caminho da democracia




A democracia não é efetivada somente em períodos eleitorais, ela costuma habitar ambientes desprovidos de discursos carismáticos e demagogos. Lugares como a rodoviária, o banquinho da praça, os intervalos nos expedientes das instituições públicas, a farmácia, a universidade,  a padaria fazem parte da democracia, pois são nestes lugares onde reivindicações são postas juntamente com elogios e descontentamentos.
Nossas instituições públicas depois da Constituição de 1988 tendem a ser cada vez mais democráticas. Todas as tarefas realizadas pelo Estado buscam ser democráticas (Orçamento Democrático por exemplo). Sendo assim, a participação democrática não ocorre apenas em período de eleições, mas durante todo o tempo. Isto é uma regra geral se tratando de Brasil, mas em Araruna, é assim?
Araruna neste exato momento passa por um surto democrático que não foi tão expressado durante as eleições municipais deste ano. O principal fator disto foi o pedido de Suplementação Orçamentária da Prefeitura a Câmara dos Vereadores. O Executivo e o Legislativo tiveram que se entender para solucionar e colocar a prova à gestão (e não a direção) do município. O debate a principio pareceu eleitoreiro, mas não foi, pois as eleições já passaram. Então o debate recaiu sobre o futuro do município nos próximos anos. Essa preocupação tem como sujeitos sociais vários agentes que estão chegando ao município assim como os antigos moradores. Vale salientar que estes sujeitos não estão preocupados com a reeleição da Prefeita Wilma Maranhão especificamente, mas com a garantia de vida digna na cidade.
Estes novos sujeitos sociais podem ser divididos em algumas categorias: 1º- os funcionários efetivados no Concurso Público Municipal de 2009 (boa parte não residia em Araruna); 2º- o universo acadêmico da UEPB, professores, alunos e funcionários também efetivados; 3º - os novos comerciantes que colocam filiais no município. 4º- Gatos e Jacarés (que retratam uma cultura política em decadência devido à quebra de dualidade).
A Suplementação Orçamentária foi a primeira prova dessa nova participação dos novos sujeitos sociais em Araruna. Muitos funcionários (como professores e garis) se sentiram desestimulados com o não recebimento de seus proventos. Independentes de predileção da Prefeitura e da Câmara dos Vereadores suas necessidades básicas falaram mais alto do que o “partidarismo” político: isto é democracia, o direito de reivindicar.
Essa democracia tende a crescer, pois os novos sujeitos buscarão exigir mais comprometimento da administração (no plano jurídico, executivo, legislativo, municipal, estadual e federal). Novas famílias de comerciantes querem matricular seus filhos em boas escolas; jovens universitários querem opções de laser; novos moradores querem infraestrutura em seus lugares de morada. Araruna cresce! Novos caminhos são estimulados por seus novos moradores. Seja bem-vinda a democracia em nosso município.

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